BLOG ÒRUN-AIYÊ (VÂNIA COSTA)
AVISO!
O texto a seguir não é uma Apresentação Protocolar: é uma Leitura Crítica com tensão, conceito e identidade autoral. Necessariamente porque a obra exige, porque “A Dança dos Macacos” não é ficção: é fricção.
A OBRA
A Dança dos Macacos não é um livro: é um curto-circuito em mentes conformistas e preguiçosas. Aqui não há compromissos com beleza, harmonia ou conservadorismo. Há uma operação deliberada de sabotagem: da linguagem, do leitor, da ideia confortável e reacionária da poesia como ornamento.
O signo “macaco” historicamente usado como instrumento de violência racial, não é apenas ressignificado. Ele é explodido, repetido até a exaustão, escarrado, cuspido e esfregado na cara do leitor até perder qualquer possibilidade de neutralidade.
Aqui não há sutilezas porque não há tempo. Não há metáforas elegantes porque a realidade não é elegante. O que se constrói, como verdade, é uma antiestética programada:
- repetição como martelo.
- fragmento como estilhaço.
- ironia como veneno,
- humor como armadilha.
A linguagem não quer ser bela. Ela se apresenta e quer ser irrecusável.
Se em Arthur Rimbaud havia o “desregramento dos sentidos”, aqui há o desregramento da consciência social. Se Paulo Leminski jogava com o mínimo, Flávio Magalhães usa o mínimo como projétil. O livro não denuncia apenas o racismo. Ele é uma rajada no peito da injustiça, revelando o funcionamento cotidiano da violência: no discurso, na mídia, na omissão e, principalmente, na normalização. Cada poema é um registro de falha civilizatória. Não há catarse. Não há redenção. Há repetição porque a violência também se repete.
Ler este livro não é um ato estético. É um ato político. E como todo ato político real, ele cobra um preço: o desconforto de se reconhecer dentro do problema.
A Dança dos Macacos não é ficção: é fricção!
O AUTOR
José Flávio de Oliveira Magalhães não escreve para ser compreendido. Escreve para não ser ignorado.
Sua trajetória atravessa literatura, teatro e artes visuais sem apontar para uma busca de estilo, mas para uma insistência: dizer, repetir, insistir até que a linguagem deixe de ser confortável.
Professor de Letras por formação, mas indisciplinado por vocação, Flávio opera fora das zonas seguras da literatura institucional. Sua escrita não se submete à lapidação formal clássica: ela se organiza pela urgência. Não há preocupação em agradar. Há necessidade de expor.
Em A Dança dos Macacos, essa postura atinge o limite: o autor abandona qualquer mediação estética e assume o risco da frontalidade.
Isso cobra um preço: a crítica pode chamar de panfleto, o leitor alienado – carente de consciência de classe e letramento racial – pode recuar, o mercado pode rejeitar, mas é exatamente aí que sua força se instala. Porque sua obra não tenta resolver contradições. Ela as mantém como feridas abertas.
Se Jean-Michel Basquiat escrevia nas telas como quem risca um sistema em colapso, Magalhães escreve como quem não aceita o silêncio como alternativa. Seu trabalho não busca permanência. Busca impacto. E impacto, aqui, não é efeito. É consequência porque A Dança dos Macacos não é ficção é fricção.
RESUMO
Não há mais espaço para leitura neutra. Ou o leitor entra ou recua, mas se entrar, precisa aceitar uma condição: não sair ileso.
Porque a antiestética aqui não é um recurso. É uma escolha ética. E toda escolha ética verdadeira desestabiliza, desperta para a traumática transição da ignorância confortável para a realidade dolorosa e obriga o leitor a escolher, conscientemente, a sua verdade.


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