Amargo Açúcar: Flecha e Abraço na Ferida Colonial
O Doce Amargo do Açúcar»: A Literatura como Flecha e Abraço na Ferida Colonial
Há livros que se leem com os olhos. Outros, mais raros, exigem que se prove cada palavra na língua, sentindo na boca o gosto que o título anuncia. «O Doce Amargo do Açúcar», de Paulo Mapu, não é apenas um romance histórico ambientado no Brasil do século XIX; é uma experiência sensorial e política. É um tapa carinhoso na face e um dedo em riste na ferida, tudo ao mesmo tempo.

Paulo Mapu, filho de Sertânia, no coração de Pernambuco, não escreveu apenas a história de um amor proibido entre uma mulher indígena raptada e um homem negro escravizado. Ele fez mais: ele fundiu, na fornalha de um engenho, as duas maiores dores fundadoras deste país. Ao unir essas duas personagens, Mapu não está apenas criando um casal romântico; ele está promovendo um encontro ancestral, um acerto de contas histórico. Ele nos lembra que a história do Brasil não é uma narrativa única, mas um emaranhado de silenciamentos, e que a carne mais barata do mercado era, de fato, a carne preta e a indígena, moídas na mesma moenda.
O que torna a obra tão contundente é a sua capacidade de transformar o horror em lirismo sem jamais amenizá-lo. O açúcar, que enriqueceu impérios e adocicou a boca da elite colonial, é aqui desnudado em seu processo de produção: um doce banhado no suor, no sangue e nas lágrimas de corpos sequestrados de suas terras e de suas origens. O título é uma síntese perfeita: o doce é dos senhores; o amargo, a realidade de quem construiu o país com as mãos amarradas.

Mas Paulo Mapu não nos entrega um tratado sobre a submissão. A grandeza da narrativa reside na palavra corage. Ao colocar frente a frente uma indígena e um africano, o autor não os trata como meras vítimas passivas da história. Ele os resgata do papel de coadjuvantes e os coloca como protagonistas de sua própria existência. O amor, nesse contexto, não é um clichê, mas sim o último e mais radical ato de resistência. É a afirmação da humanidade num sistema que os desumanizava diariamente. É o grito de liberdade que não precisa de palavras, apenas de um olhar que atravessa a senzala e a mata.
«O Doce Amargo do Açúcar» é um soco no estômago do leitor desavisado que busca um passado bucólico. É uma obra que caminha pela contramão da história oficial, devolvendo a voz a quem foi silenciado e mostrando que o Brasil foi construído não apenas com engenho e arte, mas com engenho, arte, resistência e, acima de tudo, com a coragem de amar quando tudo conspirava para o ódio.
Paulo Mapu, com a força de quem vem do sertão e carrega no sangue essa mistura que o país tenta até hoje negar, entrega uma narrativa que é, ao mesmo tempo, um documento de uma época e uma carta de intenções para o futuro. Um futuro onde possamos, enfim, reconhecer que o amargo da nossa história não pode ser esquecido, mas que o doce da nossa gente, na sua luta e na sua paixão, é o que verdadeiramente nos liberta.
Este livro é uma flecha certeira no coração da hipocrisia nacional. É um abraço apertado em todos que vieram antes de nós, sobre os ombros dos quais ainda hoje pisamos. Leiam. Chorem. Sintam na pele o calor da fornalha e na alma a força de um povo que nunca deixou de sonhar, mesmo quando o sonho parecia um luxo para os vencidos.
Inêz Oludé da Silva, artista plástica e poeta
Bruxelas, 25/02/2026


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